Mercado saturado: isso importa?

Esse artigo saiu inicialmente na O Melhor da Internet.

Como me envolvi em vários eventos voltados para empreendedores nos últimos anos recebo e-mails de várias pessoas que pretendem desenvolver seus próprios empreendimentos. O perfil dessas pessoas geralmente é formado por programadores ou freelancers que tiveram uma idéia e querem desenvolve-la até que ela se torne um negócio.

Recebo vários tipos de perguntas mas tem um tipo que me chama a atenção: “Você não acha que esse mercado está saturado?”.

Essa pergunta me chama a atenção porque, por trás dessa aparência inocente, ela tem várias subquestões importantes como: mercado “oceano azul” vs “oceano vermelho”, mercado global vs local, ineditismo vs copycat, etc.

Ineditismo

Dia desses um amigo chegou com uma ideia interessante e disse que ia começar a desenvolve-la. Algum tempo depois eu fui perguntar pra ele como estava o andamento do projeto e ele me respondeu: “Ih! Desisti da ideia. O Google implementou um produto ‘igualzinho’.”.

Eu achei a resposta interessante porque parece que as pessoas se esquecem que já existiam buscadores antes do Google 🙂 O que o Google fez para alcançar o domínio nas buscas foi criar um produto que funcionava melhor que os concorrentes.

Mesmo com esse ótimo produto eles tem os seus concorrentes em buscas específicas como busca de ofertas (ex. Buscapé no Brasil), busca de estabelecimentos locais, etc. Eles tem concorrência até mesmo para o produto principal: DuckDuckGo (a participação de mercado é menor mas mesmo assim a empresa já é lucrativa).

Quando uma grande empresa grande e poderosa resolve atacar no mesmo mercado e com um produto parecido com o seu significa que você, provavelmente, está com um bom projeto nas mãos! Essa concorrência deve ser encarada como uma validação positiva da sua idéia e não uma coisa para se lamentar. Eu sempre desconfio de empreendedores com idéias “que ninguém mais teve”.

Outro exemplo: nós, programadores, conhecemos os serviços de hosting de código Github e Bitbucket, certo? Eles são os mais famosos e o Github é o maior player nesse mercado. Quando o Github nasceu o Google já tinha o Google Code Hosting.

Mesmo assim colega resolveu criar um serviço desses e cobrar $9/mês para as pessoas usarem. Nasceu o Codeplane. O Codeplane nasceu porque ele tinha uma necessidade que não era atendida pelo Bitbucket/Github de forma satisfatória: ter dezenas de projetos pequenos para hospedar em repositórios privados.

O Github cobra por cada repositório privado, logo, o custo seria enorme. O Bitbucket, na época, limitava o número de repositórios privados em apenas 5 por usuário. No Codeplane não. Você poderia ter quantos repositórios privados precisasse. O único limite era o espaço de armazenamento total.

Ele criou um serviço útil para ele e para várias pessoas e ganhou dinheiro com isso. Independentemente dos “cachorros grandes” desse mercado.

Diferenciais

Uma coisa que é importante ter num mercado onde existe concorrência é o diferencial. O Google tinha como diferenciais a qualidade nos resultados das buscas e a velocidade com que elas eram feitas. O Codeplane tinha uma forma de cobrar diferente dos concorrentes. O DuckDuckGo também tem seus diferenciais.

O simples fato de ter um serviço adaptado para a realidade brasileira, por exemplo, pode criar um diferencial. Mas tenha em mente que esse diferencial pode ser pequeno demais para impedir seus concorrentes de atacarem seu mercado.

Copycats

Criar um produto similar à outro pré-existente e colocar alguns diferenciais nele é bacana. O “copycat” puro e simples não é.

O problema do copycat é que os seus clientes usarão o seu serviço até descobrirem o “original”. Se a empresa que fez o original for mais “poderosa”, provavelmente, terá condições de melhorar o produto deles num ritmo muito mais acelerado que o seu. Isso te deixaria para trás muito rápido na corrida pelo mercado.

Oceano Azul vs Oceano Vermelho

Existe um livro chamado “A Estratégia do Oceano Azul” (W. Chan Kim, Renee Mauborgne) que descreve o mercado como oceanos. Existe um oceano cheio de tubarões (concorrência) onde a briga entre eles é tão grande que tinge as águas de vermelho. E existem outros oceanos bem menos concorridos onde as águas ainda são azuis.

O objetivo de todos os empreendedores que estão começando deveria ser o de navegar por oceanos azuis. Com pouca concorrência. Para fazer isso o livro sugere que segmente o mercado de maneiras diferentes e ofereça valores também diferentes para esse mercado.

Analise os atributos de valor que os seus concorrentes oferecem para os clientes e tente realçar/eliminar alguns deles de modo a ter um produto único e diferente que sirva para pessoas que estão em mercados ainda inexplorados.

Global vs Local

Em vários artigos que falam sobre como começar um negócio você vai ler sobre “a necessidade de adaptar o produto para a realidade brasileira”. Não tem nada de errado com essa estratégia e ela pode até ser boa porque, inicialmente,  diminui os riscos do negócio.

Mas eu acho que devemos nos arriscar mais e parar com esse pensamento pequeno. Com a Internet e os negócios voltados para tecnologia o custo de iniciar certos serviços em escala nacional ou global é muito parecido. E, me perdoe pela obviedade, o mercado global é muito maior que o brasileiro.

Se a gente falar de um negócio que só adapta um que já existe em outro país a coisa fica ainda pior. Pode ser questão de (pouco) tempo para que a empresa global adapte o seu produto para a realidade brasileira e venha competir com você aqui no Brasil.

E aí será uma briga de uma empresa local contra uma empresa global. É bem mais difícil ganhar essa briga, não acham?

Programador Freelancer

Esse artigo saiu inicialmente na O Melhor da Internet.

Durante muito tempo da minha vida eu trabalhei como programador freelancer. Eu até tive empresa, sócio, etc. mas o fato é que eu era um freelancer como qualquer outro. Afinal eu vendia o serviço, elaborava proposta, negociava, executava o projeto, cobrava, emitia nota fiscal, e dava suporte. Durante esse tempo eu aprendi algumas coisas que gostaria de compartilhar.

Freelancing não escala

Trabalhar como freelancer é divertido e dificilmente enfrentamos problemas com a rotina quando trabalhamos desta forma. Não temos que lidar com a rotina porque cada projeto é único.

Essa variedade de projetos é legal mas tem algumas desvantagens. Como eles são razoavelmente diferentes fica difícil reaproveitar o conhecimento adquirido durante a execução de um deles.

Como o freelancer precisa aprender coisas novas em quase todos projeto perde-se boa parte do “ganho de escala” do negócio. E é o ganho de escala que permite reduzir custos que geram margens de ganho maiores ou preços menores para o cliente. Isso não é bom nem ruim. É uma característica inerente do trabalho do freelancer.

Se o freelancer opta por “crescer” o negócio e montar uma empresa com vários funcionários (ou freelancers) precisa observar que ele pode até ganhar escala mas esse ganho será praticamente linear: para fazer 1 projeto precisa de 1 pessoa e para fazer 2 projetos provavelmente precisará de 2 pessoas.

Você pode até mudar a inclinação do gráfico projetos x pessoas mas ele dificilmente se curvará.

Você vende horas? Cobre por horas

Uma armadilha bastante comum para freelancers iniciantes é a de negociar um contrato com um escopo fechado. A coisa piora se o escopo não estiver muito detalhado.

Essa armadilha é mortal porque na imensa maioria dos casos o contrato vincula o pagamento do serviço à entrega do escopo. E, acredite, os clientes vão expandir esse escopo ao ponto de tornar o projeto prejudicial para o freelancer.

Eu sei que é difícil negociar um contrato baseado em horas de trabalho mas você tem que negociar nesses termos. É melhor não pegar o projeto do que negociá-lo por escopo e/ou vincular o pagamento ao escopo.

Sei que isso é bem complicado porque as contas para pagar chegam todos os meses sem piedade e aquele contrato com escopo fechado oferece uma oportunidade de ter dinheiro para pagar essas contas. Mas no médio prazo você pode acabar se tornando um escravo do projeto e ficar trabalhando de graça nele (ou até pagando para trabalhar).

O melhor para você e para seu cliente é trabalhar com entregas parciais em intervalos curtos e rápidos. Isso nos leva ao próximo ponto…

Atualização: logo depois que enviei O Melhor da Internet o meu amigo Elvis enviou um link para um artigo que ele escreveu onde ele ressalta o fato de que um freelancer raramente consegue vender 100% das suas horas disponíveis.

Atualização 2: Depois que o artigo foi publicado me lembrei de uma outra dica importante relacionada à esse tópico. Quando você está elaborando a proposta e negociando o projeto é importante incluir o tempo usado nesse processo no valor final do projeto. Se você não fizer isso essas horas sairão “de graça” para seu cliente. Para isso funcionar direito as propostas também precisam ter um prazo de validade que permita uma revisão de valores nos casos onde a negociação demora muito.

Não cobre “50% no início e 50% na entrega”

É uma prática bem comum trabalhar dessa forma: o freelancer recebe 50% quando inicia o projeto e o restante quando entrega ele pronto.

Existem duas pegadinhas nesse modelo: uma é o conceito de pronto (veja o tópico anterior) e a outra tem relação com um negócio chamado fluxo de caixa.

Uma das coisas que certamente mata uma empresa é a má gestão do seu fluxo de caixa. E um freelancer é uma empresa de uma pessoa só. Precisa gerenciar seu fluxo de caixa com muita atenção.

Quando você fecha um negócio e recebe por ele 50%+50% fica mais difícil de gerenciar o fluxo de caixa da empresa porque a segunda metade do pagamento vira um alvo móvel. Quando você vai entregar o projeto? Quando ele estará “pronto”?

No lugar de negociar 50%+50% prefira receber parcelas em intervalos regulares (mensalmente? quinzenalmente?). Pode-se até vincular os pagamento às entregas parciais do projeto.

Receber pelo trabalho em intervalos regulares e vincular isso às entregas parciais é o cenário perfeito porque facilita a gestão do fluxo de caixa do freelancer e aumenta a segurança do cliente que pagará por algo que já recebeu.

“Produtize” seus serviços

No primeiro tópico eu falei sobre o problema de escala associado ao freelancing e aqui eu vou apresentar uma forma de amenizar esse problema.

É raro mas acontece: quando um freelancer está trabalhando no seu milésimo projeto ele percebe que certos padrões surgem em todos eles. Exemplo: quase todos os projetos tem um formulário de contato, ou uma página com um mapa mostrando a localização da loja do cliente, ou tem algum sistema de monitoramento, backup, etc.

Quando o freelancer detecta um padrão desses ele pode ter certeza que existe uma oportunidade de transformar essa parte do projeto em um produto que pode ser vendido para vários clientes. Se você fizer isso vai ter um ganho de escala ou até mesmo alguma receita recorrente.

Certos projetos também são genéricos ao ponto de poderem ser transformados em produtos (com a devida anuência do cliente contratante). Um exemplo? Um dos meus clientes solicitaram o desenvolvimento de um sistema de avaliação de funcionários para o RH da empresa.

O sistema usava uma metodologia conhecida como “Avaliação 360°” e gerava relatórios para o RH da empresa avaliar os seus funcionários. O sistema foi desenvolvido para um cliente específico mas, certamente, poderia ser útil para outras empresas. Não foi o caso mas esse projeto poderia ter se transformado em um produto.

Outros tipos de produtos que você pode criar estão na forma de conteúdo. Em meu caso, por exemplo, escrevi um livro e criei um video-curso de programação Python e Django para vender na Internet (que, por não manter mais, acabei disponibilizando gratuitamente).

Crie receitas recorrentes

Todo negócio tem seu risco e com o freelancing não poderia ser diferente. Quando o freelancer está trabalhando e vendendo suas horas de trabalho para alguém as coisas ficam bem. Mas quando, por algum problema, isso não acontece as coisas podem ficar bem complicadas.

Um freelancer pode adoecer, o mercado pode dar uma esfriada, pode acontecer uma entresafra de projetos (ex. o período de novembro a março costuma ser difícil para novos projetos).

Uma maneira de lidar com essas dificuldades é cuidar para poupar nos períodos fartos para ter algo nos períodos difíceis como na fábula da Cigarra e das Formigas. Outro modo de lidar com essa questão é criando formas de se obter receitas recorrentes.

Ofereça serviços de manutenção, suporte, apoio, etc para os clientes que desenvolveram projetos com você. Crie mecanismos (honestos) para continuar recebendo dinheiro deles mesmo depois que o projeto tenha terminado. Ou crie algum produto (tópico anterior) que seja vendido na modalidade de assinatura.

Recuse clientes ruins

Essa é uma das coisas mais difíceis de colocar em prática porque, a menos que alguém nos avise, é quase impossível saber se um cliente novo é bom ou ruim. Mas alguns indícios podem ser observados:

  • Cliente que questiona demais os preços – pode ser uma preocupação legítima mas geralmente não é. Mostra que é um cliente mais preocupado com preços do que com qualidade. Ele vai apertar os seus ganhos e vai te trocar por outro mais barato na primeira oportunidade.
  • Cliente que não sabe o que quer e não te ouve – existem muitos clientes que não sabem exatamente o que querem e isso isoladamente não é um problema. Mas se você tentar ajudá-lo a descobrir e ele recusar a sua ajuda isso pode virar um problema.
  • Cliente que descumpre o combinado – você estabelece com o cliente que ele te pagará mensalmente e no dia do pagamento você tem que ficar lembrando e cobrando. Ou cliente que simplesmente te dá um calote. Eu costumava fazer um teste: eu “esquecia” de cobrar os meus clientes algumas vezes. É engraçado mas os meus melhores clientes sempre me enviavam e-mail avisando sobre meu “esquecimento”.
  • Cliente que oferece uma “oportunidade única” de trabalhar para ele – tem muito cliente que pede um precinho camarada em um primeiro projeto com a promessa de valores maiores em projetos futuros. Não caia nessa armadilha porque esse cliente não é fiel à você. Ele é fiel ao teu preço baixo. E não se engane… tem muita empresa grande e famosa que usa o próprio nome para obter essas vantagens. Se usarem o discurso do “você vai colocar a nossa empresa no teu portifólio!” respondam de forma sarcástica: “eu já gastei a minha verba de marketing para esse ano”.

Para clientes pré-existentes é sempre importante gastar algumas horas do mês para reavaliar a sua carteira de clientes e projetos. Cliente bom é aquele que cumpre com suas obrigações, gera bons projetos, indica você para novos clientes e te dá um bom lucro.

Automatize as tarefas chatas

Coisas chatas que freelancers precisam fazer e precisam ser automatizadas o mais rápido possível:

Responder e-mails de sondagem

Eu recebia muitos e-mails assim: “Oi, Meu nome é Fulano e gostaria de saber quanto você cobraria por um projeto assim e assado”. Você tem que responder à esses e-mails mas 80% deles são de aventureiros. Pessoas que não tem dinheiro para te contratar, não sabem o que querem e não vão fechar negócio contigo.

O problema é que não dá pra você diferenciar as boas oportunidades daquelas que vão fazer você perder tempo.

Um das coisas que funcionou razoavelmente bem comigo foi colocar informações detalhadas sobre o tipo de projeto que eu desenvolvia e um valor aproximado para minha hora de trabalho no site da empresa. Colocava destaque na informação: “Esses valores são negociáveis”.

Com essas informações a pessoa já consegue ter uma idéia se ele consegue contratar o seu serviço. A outra informação (valores negociáveis) filtrava os aventureiros daqueles que realmente queriam realizar o projeto.

O cara pode até não ter o dinheiro para te contratar mas se ele quiser muito realizar o projeto ele vai entrar em contato contigo para tentar negociar o prazo de pagamento, os valores, o escopo, etc. E isso, por si só, mostra que ele pode ser um bom cliente e gerar negócios.

Algumas pessoas (por medo ou desconhecimento) acreditam que essas informações no site afugentam clientes. Pode ser que sim. Mas pergunte-se: “Que tipo de cliente eu estou afastando?”.

Produzir e enviar propostas

Depois que você entende melhor o projeto é o momento de enviar uma proposta para seu cliente.

Se você ainda estiver negociando projetos com escopo fechado fica impossível automatizar essa etapa porque cada proposta será única e precisará ser bem detalhada, mas se você negociar em termos de horas a proposta fica bem mais simples. Você precisa apenas preencher os milestones do projeto (entrego X na data Y, …) e fazer uma multiplicação de horas pelo teu valor/hora.

Eu tinha um template no meu editor de textos onde eu só alterava os dados, gerava um PDF, e enviava para o cliente. Se o cliente já era antigo, muitas vezes, eu só mandava um e-mail: “imagino que dê pra gente trabalhar nisso em uma semana por R$X”. E o cliente respondia: “Ok, pode fazer”. Esse é o tipo de relação de confiança que você precisa construir com seus clientes.

Cobrança e NFe.

Cobrar o cliente e ver se ele pagou é uma daquelas coisas que nunca consegui automatizar 100% mas cheguei à um ponto onde isso não atrapalhava o resto das atividades.

Eu criei uma conta de cobrança sem registro na conta da empresa no banco (dica: não misture sua conta pessoal com a conta usada para seu trabalho) e emitia boletos para meus clientes pagarem. Cerca de 5 dias depois da emissão dos boletos eu puxava um extrato e conciliava os pagamentos na mão. No site da prefeitura eu emitia as NFe daqueles que haviam pagado o boleto.

Comecei com um software que só emitia os boletos e depois migrei para outro que emitia os boletos e a NFe.

Seja parceiro dos bons clientes

É provável que você não consiga resolver todos os problemas de seus clientes e, nestes casos, você deve ajudá-lo a encontrar as soluções para esses problemas. Mesmo que para isso você tenha que encaminhá-lo para um outro prestador de serviços (freelancer, empresa, etc).

Se você fizer isso o cliente criará um modelo mental muito positivo sobre você: “quando eu tenho um problema é só eu entrar em contato com esse cara que ele resolve ou me ajuda a resolver”. Esse modelo mental é poderosíssimo para gerar novos negócios.

Cumpra combinados e faça com qualidade

Deveria ser o primeiro item mas resolvi deixá-lo para o final para que fique mais fresco na sua memória.

É da mais absoluta importância para um profissional que ele cumpra aquilo que foi combinado com o cliente. E mais do que isso… é importante que tudo seja feito com a maior qualidade.

Cumprir com o combinado manterá o seu cliente fiel à você. Fazer isso com qualidade transformará ele num canal de vendas.

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Trabalho Remoto

O programador, empresário e investidor Paul Graham publicou um artigo afirmando que as leis de imigração americanas impedem que talentos de outros países possam trabalhar nos EUA. Em resposta à esse artigo alguns programadores e empresários conhecidos sugeriram à ele que o trabalho remoto seria uma solução melhor para esse problema. Outros reforçaram a opinião do Paul Graham e começou aí a discussão.

Já faz quase 2 anos que trabalho remotamente para uma empresa de São Paulo a partir de Curitiba. Eu fui o segundo funcionário da empresa a ser contratado para trabalhar desse jeito. Hoje já temos 7 profissionais trabalhando assim.

Não vou mentir pra vocês: no começo foi bem complicado. Erramos de todas as formas e falhamos miseravelmente várias vezes até conseguirmos fazer as coisas funcionarem bem. Ainda está longe da perfeição mas a empresa, as equipes e os remotos estão se esforçando muito para melhorar.

Entre o caos e a situação em que estamos hoje houve um “turning point”. Um momento em que decidimos fazer a coisa funcionar.

Primeiro resolvemos estudar o assunto. Eu comprei livros e mais livros, assisti palestras e mais palestras, busquei referências em artigos, e refleti muito sobre nossos problemas.

O problema principal era a interação deficitária da equipe. Mesmo sendo uma equipe ágil que pratica SCRUM existiam muitos vícios na forma como os membros da equipe interagia. Era uma interação “olho-no-olho”, extremamente verbal (offline) e síncrona.

Essas três características são péssimas:

  • “Olho-no-Olho”: as reuniões diárias eram feitas com todos de pé (standup meeting) com todos os integrantes no escritório. Não preciso dizer que isso não rola para equipes remotas, certo?
  • Comunicação Verbal Offline: para uma equipe remota toda comunicação verbal já é deficitária (precisa de headset, conexão, ajustar o áudio, etc). A comunicação verbal “offline” é ainda pior. Eles decidiam coisas lá em SP e a gente nem ficava sabendo.
  • Comunicação Síncrona é aquela em que os intelocutores precisam estar “conectados” simultaneamente para transmitir a mensagem. Mesmo para trabalho local ela é ruim porque é uma comunicação que interrompe as pessoas. Exige a atenção delas. É o “cutucão no ombro”, o chamar no Skype, a “reuniãozinha rápida”, etc.

Enquanto ia refletindo sobre isso eu me lembrei sobre como foi trabalhar na Conectiva. A Conectiva foi o lugar onde trabalhei onde a comunicação da empresa era um exemplo de eficiência. Toda a comunicação da empresa funcionava pelos meios eletrônicos de forma extremamente eficaz:

  • Listas de Discussão (mailman com histórico online): toda a comunicação “séria” da empresa era feita por email em listas. Todos policiavam o bom uso do email e davam puxões de orelha em quem não usava do jeito certo. Existia uma hierarquia de listas (toda a empresa, equipe técnica, desenvolvimento, etc) e listas para coisas informais (off-topic). O email era para comunicação assíncrona e gerava longas threads muito bem escritas e organizadas onde se discutia quase tudo. Não era para preguiçosos porque exigia bastante esmero dos participantes.
  • IRC: a empresa tinha um servidor interno de IRC com salas organizadas também de forma hierárquica. Era usado majoritariamente pela equipe técnica (a parte administrativa da empresa usava ICQ… lembrem-se que era 2000). Aqui rolava a comunicação síncrona e a coordenação do trabalho.

Observem que não tinha nada de mais nas ferramentas. Mas elas eram usadas de forma correta e havia um policiamento por parte de todos para que isso não fosse desvirtuado.

Olhando pra isso é possível enxergar que a gente trabalhava “remotamente” no mesmo escritório. Não fazia diferença o local onde a gente estava. O trabalho aconteceria de qualquer forma porque tudo era comunicado o tempo todo pelos meios eletrônicos (salvo raras exceções e brincadeiras entre os integrantes da equipe).

Percebi que “tinha algo ali” mas guardei isso comigo.

Em 2013 a empresa onde trabalho mandou um ônibus para Brasília onde participaríamos da PythonBrasil[9]. Em Brasília tudo é “longe” e esse ônibus virou um transporte extra-oficial dos participantes do evento. Um dos convidados do ônibus foi o Sidnei da Silva e na época o Sidnei trabalhava remotamente para a Canonical. Uma grande oportunidade de aprender algo.

Entre as várias dicas que ele nos passou teve uma que me chamou a atenção: “a equipe tem que saber trabalhar remotamente mesmo que esteja no mesmo local”. Bingo!

Meu gerente (que também pesquisava o assunto) estava do meu lado quando o Sidnei disse isso e também percebeu a importância dessas palavras. Voltamos para o trabalho decididos a implantar esse sistema.

Não foi fácil mas conseguimos. Fizemos o seguinte:

  • “Forçamos” o uso de um headset para todos os integrantes da equipe (inclusive quem está no escritório);
  • As Dailys (usamos SCRUM) seriam feitas online (usamos o Mumble em um servidor próprio);
  • Movemos a maioria das conversas e discussões para os meios eletrônicos (isso diminuiu as interrupções causadas pelo “cutucão no ombro”);
  • Migramos todos os nossos whiteboards e post-its para o mundo virtual (usamos Scrumdo mas estamos avaliando alternativas melhores);
  • Usamos Slack e estamos adorando. Avaliamos e usamos outras (IRC próprio, Grove.io, Hipchat) mas o Slack detona;
  • Pareamos com tmate (temos um servidor pra isso) ou Teamviewer mas como a “fauna” de editores de texto e IDEs na empresa é abundante estamos sempre procurando algo melhor. E o Google Hangout é uma bosta. Nem adianta recomendar ele pra gente 😀 (Floobits?);
  • Já usávamos Github mas passamos a aproveitar melhor o sistema.

Tudo isso foi legal e bacana mas o que realmente foi importante nessa mudança foi o compromisso de cada um para que o trabalho desse certo. Começamos a nos policiar e “brigar” para que as coisas funcionassem do jeito certo.

Daily Meeting acontecendo no escritório

Foi importante mostrar para a equipe de SP que, se isso desse certo, eles também poderiam se beneficiar. Poderiam escolher entre ficar em casa ou encarar o trânsito de SP, por exemplo. Alguns poderiam até trabalhar mochilando!

Para a empresa? Só sucesso… ela consegue contratar os melhores funcionários mesmo que eles não queiram morar em SP. Conseguem economizar com infra-estrutura e com folha de pagamento (um salário bom em SP é excelente no interior de SC).

Quando eu era empresário sonhava em ter um escritório bacana cheio de gente foda trabalhando comigo. Hoje sou um defensor ferrenho do trabalho remoto. Acho que os governos deveriam incentivar essa forma de trabalho até mesmo como forma de melhorar o trânsito das grandes cidades.

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Review: “SideProject Book” e “The Profitable Side Project Handbook”

Hoje eu vou falar sobre 2 eBooks que falam sobre o mesmo assunto: projetos paralelos (Side Projects). Ambos são publicados pelos próprios autores (self-publishing) e podem ser adquiridos em seus respectivos sites.

SideProject Book

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Esse foi o primeiro que eu comprei mas demorou para eu começar a ler. Esse livro é basicamente uma coletânea de entrevistas fracas e repetitivas com empreendedores que resolveram começar um projeto paralelo em suas vidas.

A seleção de entrevistados é boa. Conheci muitos projetos bacanas graças à esse livro mas as entrevistas em si são muito superficiais. Uma pena.

O autor, não sei por qual motivo, faz um certo esforço para se esconder. Deu trabalho chegar ao nome dele e ainda assim não pude verificar se é real: Laksman.

O livro custa $34 e vem nos formatos PDF, ePub e Mobi. Você pode comprar o livro no site do autor. A versão PDF é bem diagramada e tem várias ilustrações que não aparecem na versão Mobi que estou lendo (Kindle). No entanto a ausência das ilustrações não prejudica muito.

The Profitable Side Project Handbook

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Esse eu adquiri recentemente e gostei mais. A autora, Rachel Andrew é sócia da empresa que desenvolve o mini-CMS Perch. O produto deles é desenvolvido em PHP e o modelo de negócios é baseado na venda de licenças e não um modelo de SaaS (Software as a Service).

Ela explora vários aspectos do trabalho em um side project e dá várias dicas que funcionaram muito bem para ela. É uma leitura rápida e suave onde ela aborda os tópicos de forma bem direta e simples.

Você também vai encontrar algumas mini-entrevistas com empresários que iniciaram suas empreitadas como um projeto paralelo.

O eBook vem em 3 formatos (PDF, ePub e Mobi) e a versão para Kindle (Mobi) é muito boa apesar de uns poucos probleminhas de layout que não comprometeram a leitura.

Você pode comprar o livro diretamente no site da autora por $39. É um pouco caro mas pode ser útil para quem tem planos de começar algo em paralelo.

O Melhor da Internet…

… pelo menos na minha opinião 🙂

Desde criança fui uma pessoa curiosa. Na época eu era chamado de “nerd” ou de “CDF” (pra ser nerd hoje basta gostar de Star Wars).

Procurar informações para satisfazer essa curiosidade nos anos 80 significava garimpar informações como um mineiro procura por ouro. A gente usava bancas de revistas, bibliotecas, sebos, livrarias, televisão, rádios, etc. E boa parte disso só estava disponível para quem podia pagar.

Mesmo sendo trabalhoso era bem divertido e gratificante buscar informações desse jeito. A gente ia atrás das informações e não o contrário.

Online: information overload

A primeira vez que consegui uma informação no mundo digital foi via BBS. Fiquei superfeliz por encontrar a lista de interrupções do Ralf Brown. Uma BBS tem toda informação que cabia em alguns CDROMs no computador do dono da BBS e isso já era muito mais do que um ser humano curioso podia lidar.

Quando tive contato com a Internet, com os buscadores (Cadê?, Yahoo!, …) e, posteriormente, com os feeds a coisa saiu do controle. Hoje eu tenho na minha lista de leitura uma quantidade de conteúdo suficiente para consumir durante toda minha vida. E a coisa não para de crescer.

Hoje eu assino vários feeds, sigo várias pessoas importantes, assino muitas newsletters e uma boa fila de livros para ler… o volume de informações que chega é absurdo e, por causa disso, precisei criar algumas regrinhas para melhorar a gestão disso tudo.

Gestão de consumo de informação

Uso três técnicas para me ajudar nessa tarefa: filtragem humana, fila de leitura, deduplicação e priorização por pares.

Filtragem humana

A quantidade de informação para ser consumida cresceu de modo tão intenso que precisei criar mecanismos para filtrar só aquilo que fosse relevante. E é aí que o bicho pega. Se antigamente era difícil garimpar informação na escassez o mesmo se mostrou muito mais difícil na abundância.

Alguns sistemas digitais até te ajudam nessa tarefa (ex. buscadores) mas nada supera os sistemas de “computação humana” (Human Computation).

Quando o Google Reader existia e tinha a funcionalidade de compartilhar artigos entre os seus usuários comecei a implementar um tipo de “filtragem humana”. Descadastrei de vários feeds que meus amigos acompanhavam e passei a ler apenas o que eles compartilhavam. Exemplo: eu assinava o feed do XKCD junto com outros colegas e eles viviam compartilhando as melhores tirinhas. Descadastrando o feed e seguindo esses colegas eu teria disponível só às melhores tirinhas e controlaria o aumento da minha fila de leitura.

Hoje eu faço isso com o Twitter. Dou follow em amigos que seguem sites importantes e sigo alguns sites importantes para compartilhar o conteúdo com eles. O interessante é que ninguém planejou isso. Foi algo criado organicamente.

Outra forma de filtragem humana é a “editorial”. Alguém muito bem informado ou comunidades se reunem para determinar a relevância das informações.

Os sites que melhor trabalham isso em comunidades são os agregadores (ex. Hacker News, Reddit, …) e sites de QA (ex. StackOverflow, Quora, …). Já as pessoas que fazem esse trabalho de forma individualizada, geralmente, usam blogs ou newsletters.

Fila de leitura

Não dá pra parar para ler todas as coisas interessantes que aparecem no momento que elas aparecem. Digo mais: não dá nem para avaliar se essas coisas são importantes ou não. Então eu faço o básico: mando o link direto para minha fila de leitura.

Uso o Instapaper como ferramenta para gerenciar essa fila mas também tem o Pocket. Acho que o Pocket é tecnicamente melhor mas o importador deles é uma porcaria e como o Instapaper me atende satisfatoriamente continuo com eles.

Tenho Instapaper no celular e usava a funcionalidade de exportar para Kindle (parei porque o kindle também já está entupido de coisas pra ler).

A tática para manter a lista de leitura em um tamanho administrável é: algumas vezes por semana tenho como objetivo ler mais artigos do que adicionei desde a última pausa para leitura.

Nem sempre é possível cumprir essa meta e o resultado é que tenho aproximadamente 400 artigos para ler.

Deduplicação

Se percebo que uma fonte de informação está só duplicando informações que já chegaram até mim por outras vias eu reavalio esse canal. Se o nível de duplicação que ele acrescenta é grande eu simplesmente desligo esse canal.

Priorização por pares

Eu priorizo a leitura do conteúdo pelo número de pares (pessoas) que recomendaram o mesmo material. Exemplo: três amigos cuja opinião literária eu respeito muito indicaram o mesmo livro (ebook). Isso e o fato de que Ridley Scott está fazendo um filme com a história desse livro obviamente fizeram eu comprá-lo e começar a ler.

O Melhor da Internet

Com esse método acabo esbarrando em coisas muito interessantes que acabo compartilhando no meu Twitter. Mas para facilitar a vida das pessoas resolvi criar uma newsletter: O Melhor da Internet.

Agora você pode me usar como filtro humano 😀

Quinzenalmente farei um resumo contendo links e uma breve descrição dos melhores artigos e sites que vi desde que comecei a usar a internet. Vou priorizar material recente mas posso incluir coisas antigas que sejam relevantes. Esse resumo será enviado para o email dos assinantes que se cadastrarem no formulário abaixo.

Os tópicos principais serão:

  • Programação – Python, Django, Web, TDD, …
  • Empreendedorismo – side-project, bootstrap, lifestyle business, passive-income-de-verdade, …
  • Carreira – produtividade, boas práticas profissionais, …
  • “Off-topic” – DIY/eletrônica, retrocomputação, jogos, tirinhas, …

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O plano é publicar a primeira edição sai no dia 21 de julho de 2014.

Foto: lecates

Negócios na “internet fechada”

Foto: Blaise Alleyne

Já faz algum tempo que acompanho o desenvolvimento de novos negócios de tecnologia ao redor no mundo. Por conta disso participei e participo de vários eventos dessa área no Brasil. Eventos onde empreendedores apresentam suas idéias, fazem seus pitches, demonstram seus produtos e buscam melhorar o seu relacionamento com outros empresários, investidores e até mesmo com seus clientes.

Nessas apresentações eu já vi todo tipo de negócio na área de tecnologia. Negócios que funcionam nos mais diversos tipos de plataformas. As plataformas mais comuns são a Web e a Mobile.

Quando um empreendedor começa a desenhar o seu modelo de negócio ele precisa pensar em diversas coisas e nesse processo ele eventualmente se coloca em uma armadilha que dei o nome de “internet fechada”. Já explico o que isso significa.

Todo mundo sabe que a internet é uma rede aberta, com padrões e protocolos abertos. Essa abertura da internet permite que você faça o que bem entender com ela (desde que não seja ilegal) sem se preocupar com nada. Na internet aberta ninguém tem poder de te censurar sem motivo razoável.

Mas existem plataformas dentro da própria Web onde existem regras mais rígidas que mudam frequentemente.

Se o empreendedor baseia toda a sua estratégia de negócio e desenvolve uma aplicação Web para o Facebook, por exemplo, ele fica sujeito às regras do Facebook. E no Facebook eles mudam essas regras o tempo todo.

O risco do Facebook inviabilizar o negócio desse empreendedor é muito alto. O empresário está lá trabalhando para aumentar a sua empresa e num dia de manhã, quando abre a sua Inbox, dá de cara com uma “Alteração nos Termos de Serviço”. Nessa alteração o Facebook proíbe ele de fazer algo essencial para atender os seus clientes.

O impacto dessa mudança nos Termos de Serviço pode até não ser fatal mas certamente vai dificultar muito as coisas para esse empresário.

Outra característica das plataformas fechadas é a de que os clientes nunca serão 100% do empresário em questão. Os clientes são da tal plataforma. Ou você acha que o Facebook vai te entregar os usuários deles?

Quando eu conversava sobre esse assunto com um amigo que desenvolve Apps para celular ele me perguntou se o mesmo não acontece nas lojas de aplicativos? Ele citou dois problemas principais: as regras mudarem de forma a impedir que sua App seja vendida na loja e o caso onde a fabricante da plataforma (ex. Android ou iOS) fornece uma App parecida com a sua integrada no aparelho.

No primeiro caso o problema é bem parecido com o da internet fechada. O segundo não.

A Apple é bem conhecida por suas mudanças de regras que levam empresas inteiras a passarem por dificuldades. Apps que promoviam outras Apps sofreram muitas restrições de funcionamento. Outras que vendiam livros, música, filmes, etc… sofreram barbaridade com a proibição de vendas a partir da App.

Pense nos empresários que investiram alto para criar esses produtos e acordaram um dia sem nada. Se a App estiver disponível para Android a coisa fica menos pior mas o impacto vai ser grande mesmo assim. No mundo do Google/Android a coisa é um pouco mais tranquila mas o risco está lá.

O segundo caso, quando uma a fabricante lança uma App similar já integrada com o SO, é diferente porque ela não proíbe você de negociar sua App.

Para resolver esse problema é só o empresário fazer a App dele ser preferida pelos seus clientes. A Apple tem o iMessage nem por isso o WhatsApp sofreu. As coisas ficam mais difíceis mas não impossíveis.

Portanto, a dica que fica para os futuros empreendedores é: não amarre o seu “core business” à internet fechada.

Integre sua aplicação com o Facebook, Twitter, etc. sem problemas. Mas faça isso de um modo onde seja possível trabalhar também de forma desacoplada: na internet aberta.

Versão Pública do projeto aprovado no PRIME/FINEP

UPDATE: Agora você pode baixar os arquivos aqui:

Pessoal,

Para cumprir a promessa que fiz a mim mesmo, caso o meu projeto tivesse sido aprovado no programa PRIME da FINEP, estou publicando uma versão editada da proposta detalhada enviada. Fiz essa promessa porque acho que ela seria muito útil para quem pretende elaborar projetos para a FINEP e porque senti falta de referências sobre como fazer isso que eu fiz.

Os arquivos estão publicados no Google Docs.

Essa versão não tem as seguintes informações:

  • Dados documentais – CNPJ, endereço, CPF, RG, …
  • Nomes/cargos/curriculum de todos os sócios – coloquei somente o meu
  • Dados financeiros – essa parte eu não podia publicar mas já adianto que usei o conteúdo do livro Plano de Negócio Passo a Passo do Adonai do José Lacruz para desenvolvê-la. O livro é ótimo: pequeno, simples, direto ao ponto e a parte financeira é bem prática.
  • Prazos – não foram detalhados, mas totalizam 12 meses obrigatórios.

Não é um projeto perfeito e, lendo ele recentemente, percebi várias inconsistências na parte do cronograma de implantação. As dicas que dou para quem for elaborar um projeto:

  • Consistência, consistência, consistência.
  • Foco no aspecto inovador da sua proposta.
  • Atenção à redação. Erros de português podem arruinar todo o teu trabalho.
  • Fundamente o máximo de informações da proposta apontando a origem dos dados.
  • Seja simples, suscinto, direto ao ponto.
  • ‘Tenha dó’ do avaliador. Não embrome.
  • Coloque as principais informações logo no primeiro parágrafo de cada seção.
  • Não enfeite muito. Sequer ‘formate’ o texto. A proposta é enviada via sistemas medonhos da própria FINEP.
  • Envie a proposta para pessoas que possam opinar.
  • Revise antes de enviar.
  • Revise mais uma vez.
  • Observe os pesos de cada critério listados no edital.

Por fim eu quero colocar aqui um pedido: envie e use essas linhas de subvenção econômica da FINEP para realizar projetos que realmente são inovadores e que possam trazer algum tipo de retorno ao nosso país.

Esse dinheiro aí não surgiu do nada. Ele vem do suado dinheiro dos impostos pagos pela população (e sabemos que pagamos bastante imposto) para que você devolva à sociedade um produto/serviço inovador que direta ou indiretamente irá melhorar a vida de todos.

Não queira obter esse dinheiro porque é ‘um dinheiro fácil’. Não queira ser um ‘esperto’ porque desta forma você pode conseguir o dinheiro às custas de um bom projeto que, futuramente, te daria mais retorno.

Valor de uma idéia não executada: R$ 0,00

Desde que saí do melhor-emprego-do-brasil lá no INdT, estou me aventurando no mundo do empreendedorismo.

A minha empresa é a Triveos e o meu plano, ao criá-la era o de prestar serviços e consultoria em desenvolvimento de software e com o dinheiro obtido com essa atividade investir no desenvolvimento de uma Webapp para gestão de micro e pequenas empresas.

Mas, como já diz o chavão, empreender não é fácil. E não digo que no Brasil seja muito mais difícil como dizem (isso vale outro post).

Mas aos trancos-e-barrancos a empresa está funcionando, o projeto em questão foi aprovado no programa PRIME da FINEP e até estamos trabalhando em um projeto-rápido, em paralelo, para garantir uma fonte de receita rápida e garantida que nos ajude no desenvolvimento do projeto principal.

Bom… agora que estamos todos ‘contextualizados’, vamos para o assunto principal.

No dia-a-dia da Triveos nós costumamos ter “idéias” interessantes para novos projetos. Eu anoto rapidamente essas idéias em fichas pautadas e as deposito no arquivo “Maybe Someday” de projetos.

Uns meses atrás eu tive a idéia de um produto relativamente simples de ser implementado e que permitiria a empresas construirem um ‘workflow’ para operacionalizar as suas relações com as redes sociais (no caso o Twitter).

Uma empresa poderia, então, ter várias pessoas trabalhando em nome da empresa nas redes sociais mas tudo ainda poderia ser ‘revisado’ antes de ir ao ar.

Assim… fazer um produto-mínimo-viável disso, em Python/Django e rodando no GAE não levaria mais do que 2 semanas de um desenvolvedor.

Uma idéia boa (eu acho), simples (como são as melhores idéias) e fácil de ser implementada. Uma idéia dessas parece valiosa, não? Só parece.

Ter tido essa idéia e anotá-la não ajudou ninguém nem rendeu nada (dinheiro, fama, sucesso, mulheres, etc).

Se eu tivesse trabalhado nessa idéia, um pouquinho todo dia, e colocasse ela no ar eu teria ganhado ao menos uma coisa: experiência, aprendizado. Também poderia ajudar empresas que tem esse tipo de problema e, com isso, faturar um cascalho.

E com o tempo foi isso o que aconteceu. Mas não comigo. O pessoal da Kingo Labs criou o http://trmanager.com.br que, na essência, faz a mesma coisa que pensei quando tive a tal idéia (mais funcionalidades extras).

A Kingo Labs “roubou” a minha idéia? No way. A única ‘testemunha’ que tenho é o meu sócio na Triveos. Só com ele eu falei sobre essa idéia.

Isso também pode ser usado pra afirmar que ter idéia é “fácil pra caramba” (parafraseando a propaganda da Embratel). Aliás, quando você está trabalhando num projeto, as idéias são tantas que chegam a atrapalhar o trabalho.

O valor de uma idéia é, então, obtido com a fórmula:

Valor = Idéia x Execução1

Se entre os programadores (do mundo Linux) a frase “Talk is cheap, show me the code” faz sentido, no mundo das idéias ela também faz.

1 Já vi a palavra Inovação no lugar de Valor, mas a palavra Inovação anda muito desgastada ultimamente.

Porque a Web 2.0 não engrena no Brasil?

Hoje, durante a minha leitura matinal, eu esbarrei num post que me levou a outro que me levou a outro.

Um resumo muito rápido do conteúdo desses três posts seria: “Porque o Brasil não desenvolve sites Web 2.0? Porque as faculdades não preparam os estudantes.”

Mas eu gostaria de acrescentar algumas coisas a mais nessa equação: “Qualificação”, “Custo” e “Investimento”.

Eu nunca montei uma empresa de tecnologia no Vale do Silício então não tenho uma referência de como as coisas por lá funcionam em detalhes, mas estou no processo de abertura de empresa aqui no Brasil e tenho um projeto “Web” pra ser desenvolvido.

O meu projeto Web 2.0 não tem nada relacionado à mídia (TV, vídeo, som, música) mas para fins de ilustração vou fingir que a minha idéia seria de montar um site de mídia chamado SeuTubo!. Então vamos à história.

Sou um “mico”-empresário brasileiro típico: o que falta de dinheiro sobra de coragem (insanidade?). E vou atrás do que é necessário para desenvolver meu projeto. Até o momento eu só tenho um Plano de Negócios (Business Plan) que venho desenvolvendo a meses e que julgo estar bom.

Vou adiar ao máximo a abertura formal da empresa porque sei que isso gera muito trabalho que eu ainda não preciso ter. Então parto para desenvolver a aplicação. Eu não sou um técnico/programador/sysadmin perfeito mas, também para fins de ilustração, vou ser um super-homem-do-código.

Como as soluções de vídeo na Web já estão razoavelmente ‘comoditizadas’ eu começo a pescar os componentes da solução aqui e ali pra montar meu site… Uma pitada de Python, outra de PHP, uns MySQLs pra alegrar os amigos que trabalham na Sun, um pouquinho de Java pra indexar os dados, … estamos quase lá… falta só o componente central: o player do lado cliente que é feito em Flash.

Ummm… Google: “Free Flash vídeo player download”… nada… busca de outro jeito trocando “Free” por “Open”… nada também… mais procura… acho algumas coisas bem imaturas e que não estão em pleno desenvolvimento… é, não vale a pena arriscar o meu futuro negócio por essa economia. Hora de colocar a mão no bolso (vazio).

Eu não tenho dinheiro pra comprar nada. Então vamos à procura de um investidor… Onde? Cadê os investidores de risco no Brasil? Tem até um portal pra eles feito *pelo governo* mas a coisa não é tão simples assim (e levaria tempo que eu já não tenho tanto).

Bom… vendo meu carro e compro esses componentes de software. Que sorte! Eu tinha um carro pra me desfazer! Meu filho vai pra escola à pé… já tá na hora dele começar a fazer atividades físicas mesmo…

A tal ferramenta sai barato: $1000 (preço hipotético também). Viva o Brasil! O dólar agora tá uma merreca! E ainda sobrou uma grana da venda do carro…

Termino de desenvolver o meu software. Hora de buscar um lugar pra hospedá-lo. Vocês já viram os custos de infraestrutura de rede no Brasil? Como que minha empresa sobreviveria até ter lucro gastando uma fortuna com as Telecoms? Que negócio Web prospera num país que cobra os preços obcenos do Brasil por um link de 1MB?

E minha aplicação de vídeo? Vocês tem uma noção da quantidade de banda que consome? E se o site fizer sucesso… que bom, não? Não! Porque eu iria à falência antes que esse sucesso vire receita porque as belas-Telecoms iriam me estorquir.

Mas… Aí eu vejo que dá pra hospedar o meu negócio em um país cujas empresas e empresários pensam nas pessoas como eu: EUA. Contrato um serviço de “Cloud Computing” onde eu pago preços baixos sob demanda pelo uso de banda. E cruzo os dedos pro dólar não voltar a subir 🙂

Legal… meu site tá funcionando lá… já dá até pra abrir ele pro público. Mas espere! Agora que eu percebi isso… o visual do meu site está uma tosqueira só! Preciso ‘dar um tapa’ no visual dele e me certificar que ele está usável, afinal, usabilidade e visual são requisitos da Web 2.0, certo?

Vou atrás de empresas de design e usabilidade… Os caras sabem que eles são poucos e vão te cobrar fortunas pela ajuda. Eles estão certos. Lei básica do mercado: muita demanda + pouca oferta = preço alto.

Tento por outra via: achar um cara de design e/ou usabilidade (provavelmente recém-formado) para ser meu sócio (lembre-se que não tenho grana pra pagar salário, logo, todos os meus ‘funcionários’ precisam ser sócios). Eu tento, tento, tento e… lanço o site feio e pouco usável mesmo. Não acho alguém com esse perfil pra me ajudar (e isso já não é ilustração, é real :D).

Legal… o site está em funcionamento e mesmo feio/torto está fazendo sucesso. Já tem até um dinheirinho entrando! Massa! (em dólar… tenho até dó do meu futuro contador) Agora não dá mais pra esperar. Tenho que formalizar a empresa.

Voltando à vida real: de 20 a 30 dias entre o início do processo e a impressão das notas fiscais. Isso porque moro no Paraná (um dos estados onde a abertura de empresas acontece rapidamente).

Agora troquem o “mico”-empresário brasileiro da história acima pelo Chad Hurley e pelo Steve Chen e vejam se foi difícil assim montar o Youtube?

Será que eles morreram nos primeiros meses de funcionamento porque as fornecedoras de links deles os estorquiram? Será que eles tiveram (ou teriam) trabalho pra encontrar um Angel Investor no Vale do Silício para financiá-los no início? Será que ficou caro e/ou foi difícil achar um especialista em design/usabilidade pra fazer o site deles? E formalizar a empresa deles? Levou um mês?

Então é isso. Muito mais do que o problema da péssima formação dos estudantes do Brasil a dificuldade para se montar um site “Web 2.0” passa por burocracia governamental, dificuldade de financiamento, infra-estrutura cara, entraves alfandegários/tecnológicos (ex. importar equipamentos não lançados no Brasil) e falta de visão empreendedora do brasileiro (brasileiro prefere ser funcionário).

Nesse cenário cheio de “pragas” é difícil de vingar uma lavoura. E quem resolve se aventurar nesse cenário, como eu, é tratado por louco pelos companheiros. E com razão.