Computador para Todos

Tenho acompanhado algumas notícias sobre o projeto Computador para Todos do governo federal e os comentários que aparecem nos blogs onde essas notícias circulam me fazem perguntar uma coisa: o que a comunidade de SL esperava desse programa?

Uma análise científica isenta (perdoem a redundância) precisa analisar o fenômeno de migração Linux->”Windows Pirata” que está acontecendo com as máquinas do programa Computador para Todos, mas eu desconfio que no final dessa análise chegaremos à uma conclusão óbvia: as empresas e o público consumidor brasileiro não estava preparado para o Linux.

Sim, as empresas não estavam preparadas porque elas não sabem como dar suporte ao Linux, como tornar os seus vendedores aptos a venderem um produto ligeiramente diferente do que eles estavam acostumados a vender, e porque os empresários brasileiros são muito bons para reclamar de imposto e juro alto (são altos mesmos) mas péssimos para criar e levar adiante modelos de negócio diferentes daqueles que eles usam desde a época de Getúlio Vargas.

O público também não estava preparado para o Linux. Os professores nas escolas pedem os trabalhos escolares em formato “.doc” para seus alunos. Os órgão públicos (principalmente o judiciário) publicam os documentos sobre licitações públicas, editais e coisas do tipo em formatos proprietários (.doc também) e os sites das instituições públicas não funcionam com navegadores que não sejam o Internet Explorer.

Como que a comunidade de software livre quer que as pessoas “normais”, aquelas que não são entusiastas de tecnologia, usem um computador com Linux? Essas pessoas vão ficar com Linux em seus computadores só porque ele é “politicamente correto”? Isso é bobagem.

E como as coisas não aconteceram da forma que a “comunidade” esperava eles trataram logo de eleger os culpados (Microsoft, Abes e Governo Federal) para que ela possa se eximir de qualquer responsabilidade pelo que aconteceu.

A comunidade erra quando ataca a Microsoft, a Abes e até mesmo o Governo Federal (podem atacar, mas usem os motivos certos). A Microsoft não tem culpa de nada. Ela está simplesmente jogando o jogo. Se a comunidade SL não fez o seu trabalho corretamente a culpa não é dela e à ela cabe apenas tentar fazer a sua parte com correção e honestidade. Se ela não for honesta a nossa função é apontar com provas a desonestidade dela.

A Abes também não é vilã. Ela é uma associação de empresas que produzem e vendem software proprietário. Ela detectou que o programa Computador para Todos estava servindo para aumentar os índices de pirataria e fez uma pesquisa para provar isso (eu tenho uma forte sensação de que eles falam a verdade nesse trabalho). Culpá-la por fazer isso é o mesmo que culpar a OAB por defender os interesses dos advogados.

Querer culpar o Governo Federal pelo programa Computador para Todos é correto? Nunca. O projeto está permitindo que pessoas comprem computadores e isso é bacana. O projeto também sugere que esses computadores venham com Linux e isso também é bacana. Mas num país democrático é o máximo que um projeto governamental pode e deve fazer. A partir deste ponto a tarefa de popularizar o Linux cabe às empresas que montam e vendem esses computadores e à comunidade de SL que dará suporte à esses usuários* e pressionará as empresas, escolas, órgãos públicos para que utilizem os padrões abertos que permitem que Linux e Windows convivam harmoniosamente.

Um “causo” real: Um sobrinho meu pediu um computador para seus pais e graças ao Computador para Todos ele iria ganhar o tal computador. Na loja (Ponto Frio em Curitiba) o vendedor explicou pra ele que o computador com Linux era mais barato mas ele recomendava a versão com Windows Starter Edition porque o Linux queimava os computadores. Graças à isso o meu sobrinho optou por não seguir os meus conselhos e adquiriu a máquina com o tal Windows. O Windows então começou a pedir códigos e mais códigos de ativação, ligações para 0800 da Microsoft, nota-fiscal pra cá, nota-fiscal pra lá e, finalmente, um WindowsXP pirata foi instalado em cima do tal Windows Starter Edition.

Isso também daria uma pesquisa interessante: Quantas pessoas tiraram o Windows Starter Edition da máquina pra instalar um WindowsXP pirata? Estaria a Microsoft colaborando com a pirataria?

* esse suporte não precisa necessariamente ser feito no formato de SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente). Esse suporte pode ser feito com desenvolvimento de novos softwares, melhoria de alguns já existentes, tradução de documentação, tutoriais, treinamentos gratuitos para grupos de usuários, etc.

Publicado por

Osvaldo Santana

Desenvolvedor Python e Django, Empreendedor, dono de uma motocicleta esportiva, hobbysta de eletrônica, fã de automobilismo e corinthiano