Curiosidade nas crianças

Quando eu era criança eu era daquele tipo que desmontava brinquedos pra ver como funcionava por dentro, mandava cartas para a seção ‘Perguntas Superintrigantes’ para a revista Superinteressante (nenhuma foi publicada :/) e consultava todo tipo de livro ou enciclopédia que pudesses esclarecer minhas dúvidas.

Toda essa introdução serviu pra ilustrar uma coisa que se repete desde a minha mais remota infância: a curiosidade.

A minha curiosidade para aprender e entender como as coisas funcionam sempre foi enorme. A minha disposição para executar experimentos também. Cheguei ao ponto de ter incendiado o meu quarto por conta de um curto-circuito na rede elétrica.

Com cerca de 5 anos eu estava experimentando se ao dar um nó no fio a corrente elétrica ainda fluiria pelo condutor. Descobri que sim. 😀 Ok, foi burrice isso! Mas eu tinha só 5 anos!. Eu poderia ter simplesmente perguntado ao meu pai se isso funcionaria mas o ensinamento não teria sido tão contundente 🙂

E acreditem, essa experiência me rendeu alguns frutos positivos no futuro (pequenos se a gente comparar com o estrago). Essa experiência me garantiu uma vantagem durante as aulas de física elétrica quando o professor falava sobre “corrente de curto-circuito” e para o meu entendimento da Lei de Ohm (U = R.I ou I = U/R). Para simplificar imagine que na minha experiência R≅0, logo, I≅∞. Se potência é o produto de tensão por corrente (P = U.I) imagine o estrago (agravado por um disjuntor que não funcionou)…

Calvin running: Dad. Look! The sun's setting and its only 3 o'clock! - Calvin's dad: It's not 3 o'clock your watch stopped - Calvin looking to watch: Time doesn't stop if your watch stops? Calvin's Dad: Nope. - Calvin disappointed: Phooey. For a moment there I thought I'd get rich patenting this thing. Calvin's dad: I'd have bought one.

Mas voltando ao motivo principal deste post

Eu tenho 3 casos diferentes de crianças próximas de meu convívio. Meu filho que tem 4 anos de idade é uma criança tranquila, que brinca bastante com seus brinquedos e até já navega sozinho nos joguinhos do site da Discovery Kids.

Ainda não consegui perceber traços de uma criança curiosa nele. Tenho receio que seja em razão da sua pouca idade ou porque suas análises e experimentos passem desapercebidos por mim.

Ainda não dá pra fazer um comparativo comigo porque minha memória só vai até meus 5 anos e ainda assim é incompleta e só está presente para registrar as grandes descobertas (ou incêndios se preferirem).

Esse tipo de comparação entre pai e filho também deve ser evitada porque faz mal para ambos.

A outra criança é a minha sobrinha que tem 12 anos e estuda no melhor colégio que uma criança poderia estudar em São Paulo. Os pais dela (meu cunhado e cunhada) são extremamente presentes e acompanham os estudos dela de perto.

Também dão apoio e suporte nos assuntos, temas e matérias onde ela sente maior dificuldade ajudando pessoalmente quando possível ou através de atividades complementares pagas.

A minha sobrinha enfrenta dificuldades na(s) escola(s) ano após ano e meus cunhados até já a submeteram à avaliações para detecção de algum tipo de distúrbio neurológico como o DDA. Os resultados foram negativos.

Uma das características que observei nela é a ausência total de curiosidade.

Eu e o meu cunhado trabalhamos em áreas relacionadas à TI e graças a isso temos acesso constante a diversas tecnologias novas e à Internet. Sempre temos em mãos aparelhos, computadores, softwares, livros, filmes e até mesmo brinquedos que deveriam despertar a curiosidade das crianças.

Não adianta. Ela continua levando a vida dela e apenas recebendo as informações sem nunca tentar “caçá-las”.

O terceiro caso já não é mais de uma “criança”. Ele fez 18 anos no mês passado. Mas eu já convivo com ele desde os 12 porque ele é primo “caçula” da minha esposa.

A curiosidade dele é o que eu chamo de “curiosidade on-demand”. Pois ele até vai atrás de entender o funcionamento das coisas mas só quando aquilo servirá para resolver um problema prático do presente.

Po exemplo: ele sabe arrumar alguns aparelhos eletrodomésticos só porque trabalhou alguns meses fazendo isso.

Ele entende o funcionamento de um ferro de passar roupas até o ponto de saber que se o fio do chicote está partido o ferro não vai funcionar, mas nunca ao ponto de associar que o ferro de passar roupas é uma resistência elétrica que transforma a energia elétrica em energia na forma de calor.

A curiosidade dele nunca tenta romper a barreira da necessidade.

Algumas observações: tanto minha sobrinha quanto do primo da minha esposa são extremamente vaidosos e se preocupam com a aparência. Além disso eles são facilmente seduzidos por coisas fúteis e são extremamente vulneráveis aos apelos consumistas (celular da moda, roupa da moda, seriado da moda, …).

No caso do primo da minha esposa pedir pra ele ler alguma coisa é quase o mesmo que pedir pra ele se matar. Ele assiste DVD dublado pra não ter que ler a legenda.

Com isso descrito eu parto pro questionamento:

  1. Todas as crianças das últimas gerações são assim ou minhas amostras estão contaminadas?
  2. Vocês conhecem crianças curiosas? (pais corujas, por favor, sejam objetivos nas respostas)
  3. Vocês acham que as crianças de hoje não são mais curiosas porque elas não precisavam mais ‘caçar’ as informações pois basta ficar parado na frente da TV/Internet para obtê-las?
  4. Os pais podem estimular a curiosidade de seus filhos?
  5. Como fazer isso?

Publicado por

Osvaldo Santana

Desenvolvedor Python e Django, Empreendedor, dono de uma motocicleta esportiva, hobbysta de eletrônica, fã de automobilismo e corinthiano