Desempregado ou despreparado?

Foto: Roswitha Siedelberg

Nessa semana a empresa onde trabalho me pediu uma ajuda para conseguir contratar um programador Python com uma certa urgência. Como eu sou o moderador da lista Python Brasil optei por enviar um e-mail ligeiramente diferente para a lista de discussão avisando da oportunidade. O e-mail terminava assim:

Requisitos:
 - Desenvolver pra Linux (necessário)
 - Desenvolver em Python (necessário)
 - Saber inglês (necessário)
 - Se divertir programando (necessário)
 - Desenvolver em C/C++ (plus)
 - Desenvolver Gtk+/GNOME (combo plus)
 - Ter estudado ciências ou engenharia da computação (mega-combo plus)
 - Conhecer bem plataforma ARM (qual é o teu telefone?)

A partir daí eu fui recebendo e-mails e mais e-mails com curriculums de candidatos à vaga e pude ver que os erros básicos que já vi em outras oportunidades continuam sendo cometidos.

Pessoal, as coisas que eu vou dizer aqui são sérias e a forma com que vou dizê-las pode ser um tanto contundente. Mas entendam que é para o bem de quem pretende conseguir um trabalho interessante. Algumas pessoas irão se reconhecer no que eu vou dizer abaixo mas para elas eu quero dizer que não é nada pessoal são apenas conselhos de alguém que trabalhou em bons lugares.

Não lamente, corra atrás

Uma quantidade considerável dos e-mails que recebi dessa vez (e de outras vezes) são de lamentação. Algo do tipo “Pôxa, que pena que eu não programo em Python muito bem :(“.

Vamos ser inteligentes. A oferta diz: “Desenvolver em Python (necessário)”. Que parte de “necessário” não foi possível entender do texto? A gente quer um candidato à vaga não uma pessoa precisando de afago.

No lugar de se lamentar por “não saber Python” você deveria é correr atrás de aprender. Nunca gastei um único tostão pra aprender Python, logo, não ter grana não serve como desculpa. Quando aprendi Python trabalhava em dois empregos e ainda tentava fazer uma faculdade. Isso também elimina a falta de tempo como desculpa.

Mesmo que você tenha uma boa desculpa pra não ter aprendido Python você vai ter que pensar sobre o que você realmente quer da sua vida: a vaga ou alimentar sua desculpa.

Se você não tem um bom projeto em Python para trabalhar fique sabendo que tem milhares de projetos de SL esperando pela sua ajuda. Escolha um que te faça feliz e toca o barco.

O salário será aquele que você irá merecer

Um outro tanto de e-mails que recebi tinham a pergunta: “Qual é o salário?” e na oferta estava escrito: “Salário acima da média local”.

Não se pergunta o salário sem você ter sido sequer entrevistado. O salário é a última coisa que se fala com o candidato. Se tá dizendo que é acima da média local significa que é um salário mais alto do que o que você conseguiria por aqui, entende ou quer que eu desenhe?

Sei que isso é utópico e que as “coisas práticas” são importantes, mas você já pensou que a empresa está te contratando para ajudá-la e não para ter mais um valor saindo mensalmente do seu caixa? Já pensou que você será remunerado na mesma proporção da sua contribuição à empresa?

Se você contribui pouco para a empresa X você vai ganhar pouco. Se a empresa Y diz que paga acima da média local significa que você vai ganhar mais que a empresa X mesmo fazendo pouco.

Quando eu tenho vontade de trabalhar numa empresa eu penso na quantidade de coisas legais que eu posso fazer nessa empresa e não em quanto eu vou ganhar. Só no final do processo é que me interesso pela remuneração.

Ofereça-se apenas para vagas que você consegue trabalhar

Esse é o pior tipo. É a famosa metralhadora giratória de curriculums. Parece que o cara tem um filtro no cliente de e-mail que pega e-mails com as palavras “vaga” ou “emprego” e já dá um reply automático com seu curriculum. Quando eu era o dono da empresa e ia contratar eu não só descartava esses curriculums como ainda marcava o nome do indivíduo na lista de “nunca contratar”.

A vaga é para “desenvolvedor” e não para “administrador de redes”! Se você não consegue ler e interpretar um texto com uma oferta de emprego é bem provável que você também não consiga realizar a tarefa para a qual você seria contratado.

Se você quer “mudar de ares” comece a estudar sobre “desenvolvimento” e mande esse tipo de informação no seu curriculum e não que você sabe instalar “postfix”, “manutenção de hardware” ou coisas do tipo.

Se você não sabe se consegue, imagine o contratante

Se você me manda um e-mail dizendo “Eu programo em Python mas não sei se dou conta de fazer o que vocês fazem” eu (no caso a empresa contratante) devo pensar o que?

Se nem você sabe se dá conta imagina eu 🙂 Mesmo que eu te conheça pessoalmente e a gente tenha conversado sobre o trabalho é você quem tem que bater no peito e bradar: “Eu consigo!”.

Então economize o seu tempo e o meu. Se você não tem certeza da sua capacidade não envie e-mail nenhum. Se você sabe que consegue mande direto o seu curriculum e se candidate à vaga.

Analise a vaga em profundidade

Antes de mandar o seu belo curriculum pra uma vaga procure saber mais sobre a empresa. Personalize o seu curriculum de forma a deixá-lo mais atraente para a tal vaga. Seja inteligente e perspicaz ao enviá-la (mas por favor polpe-se ao trabalho de inventar moda).

Eu tenho umas 4 versões do meu curriculum (e uma versão em inglês para cada uma das 4) e sempre pego ele e edito antes de enviá-lo.

Vamos à uma breve análise dos erros que vi:

  • Página 33 de 150: Não rola, né? 🙂 Se não dá pra resumir as coisas que você fez simplesmente elimine alguns dos empregos que você teve e não acrescentam nada ao seu CV. Por exemplo: eu trabalhei 3 anos em uma agência de publicidade como “publicitário” (ênfase nas aspas). Não preciso colocar isso pra uma vaga de desenvolvedor.
  • Olha a foto! Buuu!: Na mensagem tá pedindo “boa aparência”? Se não tá pedindo significa que tua aparência não importa, certo? Se tua aparência não importa a foto não serve pra nada. Pior: e se você for feio? Num eventual “empate” para a vaga a sua feiura pode te eliminar, mesmo em situações onde ela não seria importante.
  • Mexe com Linux? Pega o .doc: Erro primário esse. Se a vaga fosse pra trabalhar na Microsoft você mandaria seu curriculum no formato .odt? Porque você manda um .doc para trabalhar numa empresa que mexe com Linux? Ok, o OpenOffice “abre” esse tipo de arquivo mas o arquivo .doc mostra habilidade em que tipo de ambiente de trabalho? Na dúvida mande um .pdf, um .txt ou, como eu faço, um .html.

Eu também uso esse conselho para dizer aos candidatos: inverta o papel de quem escolhe quem. Invista no seu aprimoramento muito mais do que o exigido pelo “mercado” e apresente-se numa situação onde a empresa quer contratá-lo.

Eu já vi donos e gerentes de empresa fazendo leilão para levar um candidato. Se você é bom o suficiente para estar nessa situação você concordará comigo que é muito mais confortável.

Mas seja honesto ao ser “leiloado”. Não blefe. Eu já vi ótimos programadores que se queimaram em ambas as empresas porque descobriram o blefe. Acabou sem nenhum emprego e com a imagem arranhada em um mercado onde todo mundo se conhece.

Você trabalha no emprego perfeito, me aconselhe profissionalmente

Pessoal, eu não sou o Max Gehringer. O máximo que eu posso dar de dica é para o tipo de trabalho que eu faço. As dicas do Max são legais para casos mais genéricos mas também não precisa levá-lo à sério demais porque senão você acaba virando mais um daqueles candidatos “robôs” cheio de respostas prontas e pré-fabricadas.

Como teve mais de uma pessoa que me perguntou sobre “investir no aprendizado de Python” eu vou falar um pouco sobre esse caso específico:

Invista o seu tempo em algo que te deixa feliz. Se você gosta de programar em Python invista em Python. Se gosta de programar mas não importa a linguagem programe em várias delas.

Se você não gosta de programar? Vai fazer o que você gosta de fazer. Sai fora dessa área. Evite perder o seu tempo e o de outras pessoas que gostam de trabalhar com isso.

E tem outra coisa: usar o trabalho nessa área como meio para ganhar dinheiro para no futuro atuar em outra área menos rentável. Isso é péssimo. Atue na área “menos rentável” e faça-a se tornar rentável.

Pega o meu curriculum praquela vaga do mês passado

Um certo dia eu ofereci uma vaga em uma empresa onde trabalhava que precisava ser preenchida com urgência e recebemos curriculums para essa vaga por mais de 3 meses.

Se você vê que a oferta foi feita à mais de uma semana desiste.

Se tiver uma gota de esperança de que a vaga não foi preenchida ou tem “inside informations” de que a vaga não foi preenchida tudo bem. Mas se não for esse o caso fica a lição pra você ficar mais atento.

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Publicado por

Osvaldo Santana

Desenvolvedor Python e Django, Empreendedor, dono de uma motocicleta esportiva, hobbysta de eletrônica, fã de automobilismo e corinthiano