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H o M e P a G e
Manual do Estagiário
de Propaganda
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(texto obtido no site da DPTO.)
INTRODUÇÃO
Faço questão de ver pastas. Porque também já fui iniciante e um dia
alguém teve saco para ver a minha. Tenho essa dívida com a
profissão.
Mas nesses 10 anos já entrevistei todo tipo de maluco, de
megalomaníaco, de desavisado, e posso garantir uma coisa: não é
mole. Alguns candidatos se mostram tão perdidos quanto o tempo que a
gente dedica a eles.
Só que de vez em quando aparece um talento real que faz o todo o
esforço valer a pena.
E foi assim, analisando centenas de portfolios, em horários que
muitos workaholics já estão de pijaminha, que percebi como os
candidatos a estágio cometem erros bobos e desnecessários.
Não é culpa deles. Publicidade é uma profissão diferente, que não se
encaixa nas regras comuns do "como começar". Tem seus próprios
macetes. Este Manual do Estagiário foi feito para ajudar quem está
iniciando nessa área tão competitiva. É também, confesso, uma
tentativa de melhorar os meus finais de expediente.
O Manual do Estagiário não tem a pretensão de ser um curso de
redação, direção de arte ou coisa parecida. É apenas um pequeno guia
de etiqueta. Como se comportar à mesa - principalmente à mesa do
Diretor de Criação.
Não tentei esgotar o assunto. Foi o que deu para escrever entre uma
campanha e outra. Se você tiver dúvidas, críticas ou sugestões,
mande seu e-mail para mim.
São apenas opiniões. Por favor, não acredite cegamente. Não leve ao
pé da letra. Não transforme em dogmas. Existe a real possibilidade
de que eu esteja enganado. Eu nunca fiz estágio.
Eugênio Mohallem
MANUAL DO ESTAGIÁRIO
(Ou, para ficar na moda, "A Inteligência Emocional do Estagiário de
Propaganda.")
Conseguir estágio em agência é quase tão difícil quanto arrumar vaga
de astronauta na Nasa. E a vida dos astronautas é mais fácil, porque
o Universo é infinito, enquanto as boas agências são pouquíssimas.
Portanto, não bobeie e muita atenção ao Primeiro e Fundamental
Mandamento do Candidato a Estagiário.
PRIMEIRO E FUNDAMENTAL MANDAMENTO DO CANDIDATO A ESTAGIÁRIO:
Não seja mala. A menos que você queira um estágio na Samsonite.
Propaganda é um mundinho pequeno, uma área onde todos se conhecem.
Se o rótulo de "mala" grudar em você e se espalhar, você estará
acabado antes de começar.
JÁ PREPAREI MEU CURRÍCULUM VITAE. E AGORA?
Agora você joga o currículo fora. Lembre-se que uma árvore precisou
morrer a golpes de machado antes de desperdiçar uma valiosa folha de
celulose com currículos. Não servem para absolutamente nada. Aliás,
fico me perguntando por que alguém acha que se dizer "experiência em
Cobol e dBase" vai adiantar alguma coisa.
Alguns são mais espertos e se tocam que currículos normais são
inúteis, mas resolvem o problema do jeito errado: tentam fazer
"currículos criativos". Mandam o currículo dentro de latas, escritos
em papiros, através de telegramas falados etc, etc, e etc. Não
funciona. Simplesmente porque nada disso prova que você é capaz de
fazer um bom anúncio ou filme.
Eu me lembro de alguém que diagramou o currículo como se fosse um
rótulo de bebida, colou numa garrafa de vinho e mandou para um
Diretor de Criação. Eu trabalhava para ele e perguntei: que tal o
currículo?
Ao que ele respondeu: "nacional".
O que resolve é portfolio com anúncio bom. Crie uns 5 anúncios
maravilhosos, coloque num portfolio e pronto, a vaga é sua. Se não
houver vaga, não tem problema: a qualidade do seu trabalho vai criar
a vaga na hora. Simples, não? Simples nada.
PREPARANDO O PORTFOLIO
Idéia boa é idéia boa em qualquer lugar, mas uma apresentação
razoável sempre ajuda. Se quiser, você pode comprar um portfolio
profissional no Omar Olguin, que é o mais conhecido. O telefone do
Omar é (011) 65-3221 (não estou ganhando nada pelo merchandising. Se
você souber de outros bons fabricantes, escreva-me que incluirei
aqui).
Coloque na pasta somente peças onde a sua participação foi
importante, decisiva ou majoritária. Se você só fez o texto e o
título é de outro redator, avise antes que perguntem.
O portfolio deve ser a última trincheira da moralidade. Uma pequena
picaretagem aqui e você está queimado. E pode acreditar: mais cedo
ou mais tarde (geralmente mais cedo) tudo se descobre. Como eu já
disse, propaganda é um mundinho.
Cuidado com a pasta folclórica. Toda pasta de estagiário tem alguma
campanha para camisinha. É compreensível, já que este é um tema
legal e tem um briefing conhecido. Mas já está manjado. Além do
mais, este tipo de campanha é uma exceção no dia-a-dia da agência,
que é feito de sabonetes, sabões em pó e pastilhas para freio. Pega
bem criar anúncios para produtos reais e não apenas para boas
causas. Lembre-se que agências precisam dar lucro. E eu presumo que
você não aceite ser pago em camisinhas (ainda que você aceite, não
vai ter muito tempo para usá-las).
Você já ganhou um prêmio? Ótimo, parabéns, mas não precisa colocar o
diplominha na pasta. É forçada de barra, do tipo "Eu ganhei prêmio
com este anúncio, você vai ter coragem de não achá-lo genial?"
O profissional que vê pastas em geral já tem um critério
desenvolvido e sabe avaliar as peças independentemente de sua
performance em premiações. Se ele tiver critério, o tal diploma é
desnecessário.
Se não tiver, para quê você quer estagiar com ele?
A IMPORTÂNCIA DO PRIMEIRO ANÚNCIO.
O primeiro anúncio da pasta é o que rotula e classifica você. É a
famosa primeira impressão. Se o primeiro anúncio for bom, os que se
seguirem vão apenas ter que reforçar isto. Se for ruim, caberá aos
outros a hercúlea tarefa de reverter uma má impressão inicial. Viu a
responsa? Viu a diferença? Carinho com o primeiro anúncio.
Idealmente, o primeiro anúncio deve produzir a seguinte sensação em
quem vê a pasta: "Epa! Aqui tem coisa. Deixa eu ver se tem mais".
Peça opinião de colegas, promova uma votação secreta na sua casa,
pergunte ao zelador do prédio, mas não erre no primeiro anúncio.
A ORDEM DOS FATORES ALTERA A PROPOSTA.
Minha sugestão de como montar um portfolio que impressiona é o
seguinte:
Comece dispondo os seus anúncios numa fila crescente de qualidade.
Primeiro o meia-boca, por último o melhor deles:
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
Depois, pegue o último (o melhor) e coloque na frente de todos:
10, 1, 2, 3, 4, 5, 6 ,7, 8, 9.
Está pronta a pasta: um grande anúncio abrindo - e em seguida um
crescendo de qualidade. Naquela bolsinha lateral, você põe os
discutíveis e polêmicos. E só os mostra se for necessário ou se
houver clima para tanto.
PEÇAS POLÊMICAS E OUTRAS ESQUISITICES.
Regra: o que é consenso vem primeiro, o que é discutível e polêmico,
só no final. Não fui eu quem inventou isso. Esta é uma regra básica
de retórica. Tanto que ninguém começa um discurso com "Sou a favor
da pena de morte". Em geral, começa-se com pontos em que todos
concordam, tais como "É preciso diminuir a violência".
No portfolio é a mesma coisa: só depois de "ganhar" quem está vendo
a pasta, é que você pode arriscar e mostrar aquela peça que 9 entre
10 pessoas acham que é delírio. E principalmente aquela peça que é
igualzinha a uma outra que está no anuário, mas que você jura ter
feito primeiro. Pois só depois de ver vários anúncios bons seus, só
depois de estar convencido de que você tem realmente talento, é que
existe a chance de que alguém acredite na coincidência. Anúncio
chupado no começo da pasta, ainda que involuntariamente, é filme
queimado na certa.
Aliás, isso merece um parágrafo.
PARÁGRAFO:
Uma das coisas mais chatas que podem acontecer a quem está começando
é o "plágio retroativo": um belo dia, sai na Veja um anuncio igual
ao que você fez faz tempo, mas não saiu. Como você ainda é
desconhecido, vão pensar que o SEU é plágio. É duro, mas nestes
casos, não há muito o que fazer. É mais negócio tirar da pasta. Você
vai ter que dar tantas explicações que não vale a pena.
E FINALMENTE:
Além de todas essas preocupações, não se esqueça de colocar uns 5 ou
6 anúncios indiscutivelmente geniais na pasta. Costuma funcionar.
COMO É QUE EU ESCOLHO UMA AGÊNCIA?
Pelo dono da agência. Uma agência sempre tem a cara do dono. Os
valores e prioridades do dono permeiam toda a estrutura. Assim como
também é a identificação com estes valores que atrai clientes e
profissionais parecidos.
Logo, se você é de criação, vai se sentir muito mais realizado se
procurar agências cujo dono seja de criação. Certamente serão
agências onde a criação vai ter mais peso e mais voz que, por
exemplo, numa agência de mídias.
Mas não siga esta regra cegamente. A Talent, uma das agências mais
sistematicamente criativas do país, pertence a um profissional de
Planejamento (vá lá, ele foi redator em início de carreira). Mas se
você tiver a sorte de conseguir um estágio lá, não seja louco de
desperdiçar.
DURANTE A ENTREVISTA: COMPORTE-SE. VOCÊ ESTÁ SENDO OBSERVADO.
As pessoas olham as pastas, mas contratam pessoas. Comporte-se.
Se você já está em alguma outra agência, não fale mal das pessoas de
lá.
Vão adorar ouvir as fofocas, mas não vão confiar em você.
Não fique tentando explicar, contextualizar as peças. Deixe o
portfolio falar por si próprio. Anúncio que precisa de explicação é,
em princípio, anúncio ruim. Além do mais, ninguém consegue ler um
texto com alguém do lado matraqueando sem parar. Lembre-se do
primeiro e fundamental mandamento. Não seja porfolio-sem-alça.
Não seja presunçoso. Provavelmente você ainda não é tão bom quanto
pensa. E, ainda que seja, talvez não seja o suficiente. A
concorrência hoje em dia, entre estagiários, está assustadora. Um
dia surgiu uma vaga aqui na Almap. Pensa que o pessoal veio com
idéias rabiscadas em papel almaço? Nada disso. Profissionalíssimos.
Lay-outs de computador. Portfolios em CD-ROM. Um dos canditados
tinha até filme concorrendo em Cannes. E não levou a vaga.
Tenha sorte de ser a pessoa certa na hora certa no lugar certo.
Eu não sei onde se compra isso, mas arranje.
MOSTREI A PASTA PARA TODO MUNDO E NÃO CONSEGUI NADA.
Você é que pensa que não conseguiu nada. Conseguiu sim: a esta
altura, seu critério já está mais apurado. Depois de passar por um
monte de gente, você já descobriu quais são os anúncios realmente
bons, quais os meia-boca, etc. O pessoal diverge um pouco, mas o que
é muito bom e muito ruim aparecem claramente. Isso vale ouro.
Aproveite para ir promovendo ajustes na pasta.
O que dá origem a uma subdica: não cole as peças com adesivo muito
forte. Colar e descolar vai ser um exercício constante.
Cuidado também com as peças xerocadas: elas soltam um pó que gruda
no acetato da pasta, estragando o portfolio. Se não der para evitar
a xerox, experimente jogar um spray fixador nelas. Não resolve de
todo, mas ajuda.
Nunca deixe o porfolio no carro: o calor deforma completamente o
acetato. E se levarem o veículo, além do seguro não cobrir, ainda
existe o risco de o ladrão fazer carreira com as suas idéias.
Pensando bem, isso já deve ter acontecido muito.
NÃO ME ENROLA: MOSTREI A PASTA PARA TODO MUNDO E NÃO CONSEGUI NADA.
Uma pasta inteiramente renovada - e, de preferência, levando em
consideração todos os conselhos que você recebeu no primeiro périplo
que fez - é a melhor desculpa para conseguir uma segunda chance.
Pasta igual, sem novidade, nem pensar.
Por outro lado, um jeito simpático de se fazer lembrar, sem amolar
ninguém, é mandar pelo correio, para pessoas que você já visitou,
uma versão xerocada e reduzida do seu portfolio. Com nome, telefone
e um bilhete curto. Se pintar uma vaga no futuro, pode ser que se
lembrem de você.
CONSEGUI O ESTÁGIO. E AGORA?
Sabe o primeiro e fundamental mandamento do candidato a estagiário?
Também é o primeiro e fundamental mandamento do estagiário: não seja
mala. O departamento de criação é lugar sem paredes, onde as pessoas
têm que conviver entre si 12 horas por dia. Ou seja, inconvenientes
incomodam. Publicidade é uma profissão em que as pessoas têm que se
expor muito, falar e propor muita bobagem, então elas preferem
trabalhar com gente em quem possam confiar. Seja legal. Ou finja que
é. Depois que você virar dono de agência, aí pode ficar intragável à
vontade.
Não defenda excessivamente um trabalho recusado. Gente que se agarra
demais a uma idéia é porque deve ter poucas. Confie nos mais
experientes. Você pode até ter mais talento que eles. Mas, nesse
ponto da sua carreira, eles provavelmente sabem usar o seu talento
melhor que você.
Não discuta, não argumente demais, não pondere e, sobretudo, não
comece frases com "Veja bem". Se mandarem você refazer, refaça. Por
quê? Leia o segundo e fundamental mandamento do estagiário.
SEGUNDO E FUNDAMENTAL MANDAMENTO DO ESTAGIÁRIO:
Resolva problemas e suba. Crie problemas e suma.
O primeiro produto que você vai ter que vender é você mesmo. Seu
consumidor, no bom sentido (ou no mau, a vida é sua) é o Diretor de
Criação. E você só será um produto útil, desejado e valorizado se
resolver problemas para ele. Vamos analisar mais detalhadamente esta
criatura:
O Diretor de Criação é um ser atormentado com pressões de todos os
lados. A diretoria pressiona por faturamento, o atendimento
pressiona por prazos, o cliente pressiona por custos e, às vezes,
por uma visão criativa própria. A equipe de criação pressiona pela
aprovação daquela campanha que vai dar prêmio. Isso sem contar a
pressão que ele sofre do próprio ego, por estar cada vez mais
envolvido com atividades executivas e menos com Criação.
Diariamente, toda sorte de pepinos aterrissam na mesa dele,
travestidos de "Pedidos de Criação". Alguns desses pepinos ele vai
repassar para você. Se você souber descascá-los com competência,
rapidez e, ainda por cima, com brilho, você terá no Diretor de
Criação um homem eternamente grato. A simples idéia de perder você
para outra agência vai tirar o sono dele.
Por outro lado, se em vez de levar soluções, você for um pepino
ambulante, você não serve. Se o diretor de criação tiver que perder
mais tempo com você do que perderia fazendo ele mesmo o trabalho,
você é apenas um estorvo. Tema pelas sextas-feiras, dia em que
tradicionalmente as agências se livram dos chatos.
Quanto mais rápido e talentoso for o Diretor de Criação, mais
cuidado você vai ter que tomar com o precioso tempo dele. Se ele
resolve com um pé nas costas aquilo que você enrola uma semana, o
próximo pé dele pode ser nas suas costas.
Acredito que essa dica vale para a vida inteira, não importa se você
é estagiário, junior, senior ou seja lá o que for.
E COM O RESTO DO PESSOAL?
Principalmente, seja humilde. A arrogância inibe opiniões sinceras.
Você vai receber respostas diferentes se perguntar "o que você acha
deste título?" no lugar de "não é genial este título?"
ANUÁRIOS DO CLUBE DE CRIAÇÃO
Os anuários do Clube de Criação de São Paulo são o registro daquilo
que a propaganda brasileira produziu de melhor nos últimos 20 anos.
Leia, releia, decore cada um deles. Ajuda muito, em pelo menos três
aspectos: você aprende, sem perceber, como dar forma às idéias. O
estagiário de talento é alguém que já tem boas idéias, mas se perde
na formulação. Os anuários são um prato cheio delas. Algumas, de
tão gastas e repetidas, já viraram fórmulas, truques. Mas sempre
ajudam. Você vai encontrar, provavelmente, muita coisa do seu
Diretor de Criação e do pessoal da agência nos anuários. É um jeito
de você saber com quem está lidando. Se são talentos genuínos ou
apenas metidos à besta. Se são pessoas em quem vale a pena grudar.
Evita que você crie coisas geniais, maravilhosas - mas que
já foram feitas. Embora o anuário mais recente custe uma nota, os
mais antigos costumam ser uma pechincha. Atualmente, o Clube de
Criação de São Paulo está vendendo 11 edições do Anuário por apenas
200 reais. Ou seja, só 18 reais cada - e a metade disso se você
for sócio.
Aproveite. Como dizem as escolas de computação, o curso é grátis,
você só paga o material didático.
O telefone do Clube de Criação de São Paulo é (011) 251-0766. Ligue
e diga que você leu a dica na minha página. Você não vai ganhar
nenhum desconto por isso, mas eu vou ficar com a maior moral lá.
CULTURA GERAL.
Vire-se para arranjar. Mas o ideal é que você já tenha, e bastante.
Porque depois de entrar numa agência competitiva você não vai ter,
infelizmente, muito tempo para ir a cinema, ler, viajar etc. Então,
é indispensável que você já tenha acumulado uma boa cultura geral,
seja através de vivência, seja através de livros, etc. Imagine que
você é uma bateria. A cultura é sua carga, carregada a vida inteira.
O processo de criação exige que você gaste esta carga - e sem muito
tempo para recargas. Se você é uma bateria fina, vai se esgotar
logo. Tomara que você e seus pais tenham investido na sua educação.
Senão, esqueça. Vá ser Dee-Jay.
CULTURA INÚTIL.
Se você já se perguntou algum dia para que serve a famosa cultura
inútil, eu respondo: para fazer propaganda. É impressionante o que
isso rende. Um dia, li uma notinha sobre um homem que criava um leão
no quintal e que esse leão havia sido roubado. Virou texto de
anúncio de seguradora: "Se os assaltantes não têm medo nem de leão,
você acha que um cão de guarda vai defender seu patrimônio? Faça um
seguro etc" E por aí vai. Fatos dão sabor e consistência a qualquer
argumentação. E propaganda, lembre-se, é argumentação embrulhada
para presente.
ESPERA AÍ: ESTE MANUAL É SÓ PARA ESTAGIÁRIO DE CRIAÇÃO. EU QUERO
ESTAGIAR EM ATENDIMENTO.
É verdade. Desculpe não ter avisado antes. E quer ouvir outra má
notícia? Apesar da Criação ser a área mais desejada e procurada,
entrar em Atendimento é mais difícil ainda. Por quê? Porque não
existem parâmetros objetivos para avaliar o talento do iniciante
nessa área. Querendo Criação, você faz um portfolio e mostra. Mas,
querendo Atendimento, vai mostrar o quê? Sua habilidade em dar nós
Windsor na gravata? Acho que a seleção de estagiários em Atendimento
acaba sendo meio na base do feeling, da química. Resta a você tentar
uma entrevista com alguém da área, dizer que os deslumbradinhos
adoram criação, mas você que é sensato gosta mesmo é de Atendimento
e torcer para irem com a sua cara. É difícil e imprevisível.
Mas, pensando bem, essa dificuldade inicial é justa: afinal, para
você que um dia vai estar convencendo clientes a aprovar campanhas
que custam milhões de dólares, convencer alguém a comprar um
estagiário bom e baratinho vai ser moleza. Boa sorte.
E antes que você fique com a impressão de que tratei o seu problema
com descaso, quero dizer que acho Atendimento tão ou mais importante
que Criacão numa agência que pretenda ser criativa. Porque uma
agência não é percebida como criativa pela qualidade daquilo que ela
consegue criar, mas sim pela qualidade daquilo que ela consegue
aprovar e veicular. Idéia boa, recusada, não vale nada. Por isso,
toda agência boa de criação é, antes de tudo, boa de aprovação. Vou
torcer para você se tornar um grande profissional de atendimento,
porque nós da Criação precisamos muito dessa turma.
EVITE A TODO CUSTO:
Não faça tráfico de informações. Não comente fora da agência nada
que você ou um colega criou e que ainda não foi veiculado. Isso é
propriedade da agência e do cliente. Nada de conversinhas de bar do
tipo: "vocês não imaginam o puta anúncio que eu fiz hoje". Bico
calado até o anúncio sair. Aí, pode fazer quanto lobby quiser.
Alguns estagiários tentam compensar o pouco status inicial com o
tráfico de informações. "Faço estágio na agência tal e fulano que
trabalha lá disse o seguinte". Alta traição. Um inocente comentário
fora da agência pode colocar campanhas a perder, prejudicar os
clientes, concorrências e prospects. Além do fato de que os
ouvintes, embora possam se aproveitar da informação recebida, vão
pensar duas vezes antes de contratar um boquirroto como você.
Propaganda é uma indústria e não está imune à espionagem industrial.
Não facilite.
DROGAS
Talvez eu esteja sendo muito ingênuo ou distraído, mas não conheço
muitos profissionais que façam uso delas.
O ambiente das agências hoje em dia é predominantemente careta. Até
o cigarro está diminuindo. O volume atual de trabalho exige
produtividade, profissionalismo, atletismo intelectual. Chegar,
ligar o computador e trabalhar. É um ritmo forte que a droga, em que
pese uma ou outra suposta "iluminada", acaba prejudicando. A grande
droga consumida nas agências hoje em dia é a pizza para viagem.
DÊ CRÉDITO A QUEM MERECE.
Ter um texto enxuto é bom. Mas nunca nas fichas técnicas. Se você
foi ajudado, reconheça e registre. Você é pequenininho demais para
fazer inimigos.
Por incrível que possa parecer, sua sobrevivência vai depender mais
da sua reputação que da sua pasta. Já vi pessoas perdendo a chance
de conseguir emprego porque alguém na criação levantou uma
sobrancelha, ironicamente, quando o nome do candidato foi citado.
Nenhuma pasta, por melhor que seja, sobrevive a um "Esse cara aí é
bom. Mas".
Existe uma teoria do Bill Bernbach, citadíssima, mas que sempre vale
a pena relembrar. Dizia o mestre:
"Se vejo uma pasta medíocre de um bom sujeito, gasto horas com ele,
explico que não vai ser possível, lamento profundamente. Mas se vejo
uma pasta brilhante de um mau-caráter, despacho o canalha a
pontapés. A vida é curta demais para perdermos tempo com filhos da
puta".
PODE ESQUECER A NOVELA DAS SETE.
Carreiras são como aviões: você precisa de mais força na decolagem
do que para se manter nas alturas. Ou seja, esteja preparado para
ralar muito nos primeiros anos.
ESTOU INDO TÃO BEM QUE RECEBI UMA PROPOSTA.
Não mude de agência pelo dinheiro. Só pense no fator dinheiro depois
que estiver convencido de que a mudança, por si só, já vale a pena.
E aí sim, negocie o melhor salário que puder. Mais vale um estágio
não-remunerado em agência boa do que emprego em agência média. O
autor da frase "o dinheiro não é tudo" provavelmente era um
estagiário esperto.
Recebendo uma proposta, não blefe, não faça chantagens,
cabos-de-guerra ou joguinhos espertos com a agência. É verdade que
com uma proposta na mão você tem um trunfo - mas nos outros 364 dias
do ano você não tem. Não costuma ser bom negócio colocar um diretor
de criação contra a parede.
E, se o seu ego permitir, não divulgue por aí as propostas que você
recusou. Por educação, nada mais. Você também não iria gostar se
alguém saísse espalhando que não quis nada com você.
Resumindo todo esse papo de escoteiro: em propaganda você tem que
ser esperto. Nunca espertinho ou espertalhão.
SÓ ME DÃO MERDA. O QUE ELES PENSAM QUE EU SOU? ESTAGIÁRIO?
Você acha que a agência vai dar a campanha mais importante de um
cliente grande para um desconhecido qualquer? Ainda que eles fossem
loucos para fazer isso, seria um desrespeito para com os clientes.
Seus jobs irão ganhando complexidade e importância à medida que você
for inspirando confiança.
E tem mais: o que parece um osso muitas vezes é um filé. E um filé
muitas vezes é um osso. Depende do seu talento. Qualquer boteco faz
filé ao molho madeira. Mas poucos fazem um ossobuco como o Fasano.
UMA PALAVRA DE CONSOLO AOS ETERNOS RECLAMÕES:
Os médicos levam uma vida muito mais dura que você. Eles estudam
seis anos, depois mais dois de especialização. No começo, só podem
ficar assistindo às cirurgias de médicos mais experientes, sem fazer
nada. Depois, passam a colaborar nas cirurgias dos outros, sem
nenhum crédito. Depois, passam a operar, mas vigiados de perto. E só
depois disso, muitos e muitos anos depois, é que ficam sozinhos
diante de um pâncreas.
Tudo isso por um salário menor do que aquele que você estará
ganhando em breve, se tiver talento. E com muito mais plantões.
PALAVRAS FINAIS:
Todo job é osso, chato, difícil e complicado - até você ter uma boa
idéia. Aí ele fica legal.