Palestrante

Pilha de ambplificadores e auto falantes

Hoje eu estava lendo o artigo Stepping Back from Speaking do Martin Fowler e me identifiquei com muitas coisas que ele disse. Na verdade parece um artigo que eu teria escrito para falar sobre o assunto. Exceto pelo fato dele ser “O” Martin Fowler e eu ser só o Osvaldo, eu passo (ou passava) por tudo o que ele diz ter passado para dar palestras em eventos de tecnologia.

Quando eu era mais novo costumava ser bastante introvertido. Isso mudou quando uma professora de educação artística notou que meu talento para trabalhos manuais era bem limitado e decidiu organizar grupos de teatro na minha turma. Fiz ou ajudei a fazer do roteiro à cenografia e até atuei no palco. Ali eu pude perceber que conseguiria me apresentar para uma audiência.

O tempo passou e a vida aconteceu… veio o trabalho como programador e pude voltar a ser o cara que fica ali no canto, de cabeça baixa, codando.

Mas aí surgiu o meu envolvimento com as comunidades de FLOSS e, principalmente, com a comunidade Python. Nessas comunidades eu achava super importante compartilhar as coisas que eu aprendia. E a forma de fazer isso quase sempre envolvia falar para uma grande audiência (qualquer coisa maior que uma mesa de bar já conta como ‘grande audiência’ pra mim).

E aí acontece aquilo: as primeiras apresentações são péssimas, vão melhorando para ficarem muito ruins e um dia, quando menos se espera, eu estava mandando bem.

Uma das coisas que a gente aprende fazendo palestras é que é muito importante respeitar a audiência. Respeitar a audiência é garantir que você fez o seu melhor para trazer algo relevante para eles. Fazer isso com muito carinho e muita qualidade. Tem gente ali que investiu tempo e dinheiro que vão faltar mais na frente na esperança de ter um retorno por esse investimento. Eu me sinto obrigado a fazer valer esse investimento.

Em eventos de tecnologia é bastante comum ver os palestrantes montando suas apresentações em slides poucas horas antes de apresentar. Tem gente que tem esse talento mas eu não tenho. Sempre cheguei com minhas apresentações preparadas e ‘testadas’ (algumas vezes testava em encontros locais ou eventos menores). O dia antes da apresentação era só pra atualizar uma ou outra informação que eventualmente tinha surgido desde a última revisão.

Causo: durante a PythonBrasil de São Paulo alguns ladrões de notebooks entraram no evento e roubaram meu notebook (e mais um outro da minha amiga Karyn). Minha apresentação estava nele e infelizmente, por negligência minha, não estava sincronizado na nuvem. Eu pedi para retirarem a minha apresentação do evento porque eu não conseguiria fazer ela mesmo conhecendo bem o conteúdo dos slides. Eu entrei em pânico com a ideia de não entregar uma boa apresentação.

No dia em que tenho que fazer a minha apresentação, tal como acontece com o Martin Fowler, eu entro em um estado tão estressante e fico tão ansioso que fica parecendo que estou tendo um ataque de pânico. Eu chego a ter problemas intestinais nos momentos que antecedem a minha fala.

Não abandono o plano porque já sei, por experiências prévias, que essa sensação dura só até os primeiros minutos no palco. Nesse momento eu entro em flow com o conteúdo e consigo superar o mal estar.

Quando a apresentação acaba eu só peço para anotarem a placa do caminhão. Estou exausto e, algumas vezes, até com dores físicas.

Muitas vezes eu cogitei “tomar algumas” (“fumar” poderia funcionar também) para ver se quebrava um pouco a ansiedade mas desistia da ideia por respeito à audiência. Eu não sei exatamente o que aconteceria mas não me perdoaria se a apresentação ficasse ruim porque eu estava alterado.

Apesar disso tudo e, diferentemente do Martin Fowler, eu pretendo continuar fazendo apresentações. Sinto que devo isso à comunidade que me trouxe muitas coisas boas na vida e na profissão. Entretanto, tentarei restringir os convites que aceito e, provavelmente, enviarei propostas para poucos eventos.

Para iniciantes

Se tem algo que eu gostaria de trazer para quem vai começar a se apresentar em eventos, é que eles entendam que esse nervosismo é normal e bem comum. Até mesmo aquela pessoa no palco, que você admira muito, pode estar passando por essa provação.

Se você quer encarar essas experiências entenda que pode acontecer esses contratempos ao longo do caminho. E se você não quiser, ou não puder, encarar essas dificuldades tá tudo bem também.

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Categorizado como Geral

Por Osvaldo Santana

Desenvolvedor Python e Django, motociclista "dormente" (sem moto no momento), hobbysta de eletrônica, fã de automobilismo e corinthiano